Coluna: Gotas de Mim







Festa Celestial


O céu estava em festa, a música não parava, todos dançavam.
Cada qual ao seu estilo, formando um lindo quadro gigante do paraíso.



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Fotofobia


Durante a noite nada é muito claro.
Durante o dia tudo é muito claro, e claridade demais atrapalha a minha visão de você.



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Para Sempre


Simples como o mar, é amar quem te ama.
Perigoso como o mar, é amar quem não te quer.
Complexo como o mar, sou eu com você.



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Cálculo Populacional


Algumas pessoas valem por duas, outras valem por mil, e você não vale nada!



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Claudia Borges

Coluna: Alma Vivente






Infância Perdida



           Oi, tio Ivan, sou tão pequena, ainda tenho muito a descobrir, mamãe e papai não andam muito satisfeitos com o tempo que perco no celular e no tablet, eles reclamam o tempo todo que devo fazer outras coisas, mas que coisas posso fazer? Sabe, tio Ivan, eles não entendem, estão tão perdidos quanto nós! Eles me dizem que devo brincar com as crianças da minha idade, que devo correr, pular corda, cirandinha, mas eles não tem tempo, e as crianças também não. Meus amiguinhos fazem mil e uma atividades e vivem cansados, embora sejam tão pequenos quanto eu. É curso de inglês, balé, natação, curso de música, entre tantas outras atividades.
Meus amigos nunca podem! Será que os pais deles não percebem que essa é nossa única chance? Nosso tempo é agora, tio Ivan, tudo passa tão rápido, logo logo seremos grandes, e nossa infância estará perdida! Mamãe conta com muita alegria como era bom correr com as amigas, que subia em árvores, brincava de peteca, e quem deixasse cair, tinha que esperar a próxima vez.
Mamãe diz que elas e suas amigas nem sentiam fome de tanto que brincavam, vovó tinha que ir chamá-la na rua para que viesse pra casa. 
E agora comigo é tudo tão diferente! Meus dias são dentro do apartamento, sem meus amigos, que vejo apenas na escola. Eu queria ser como mamãe, brincar o dia todo, pular corda, brincar de ciranda, jogar peteca, pular amarelinha até chegar no céu... eu quero brincar, eu quero correr, essa é minha única chance de ser criança, eu preciso disso agora! Papai diz que não dá para confiar nas ruas e que está tudo muito perigoso, diz que em seu tempo a liberdade era mais possível e que agora teme por minha segurança.
O que papai não percebe é que mesmo em meio a tudo isso, eu sou apenas uma pequena menina, querendo descobrir o mundo, querendo desesperadamente a liberdade de meus amigos, porque sem eles nada tem graça. Quero poder ter histórias para contar amanhã, iguais às de mamãe, e até agora não tenho nenhuma. 
Titio, me ajude, eu quero brincar, eu preciso brincar, chega de ficar presa, não cometi nenhum crime! Na verdade, o meu maior crime foi ter nascido em uma época onde todos estão ocupados demais.
Mas, eu tenho esperança de que tudo vai melhorar, e será então a minha vez, de contar as minhas histórias. 
Viva as brincadeiras de criança, viva a infância, essa é nossa única chance. Queremos brincar! 
Beijos, titio Ivan, espero um dia poder lhe escrever contando minhas aventuras, até a próxima. 
Por enquanto, minha infância está perdida.


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Momento Shalom 


Toda criança precisa ter suas histórias, suas memórias, seus belos e doces encanto da infância. Nós adultos, quando crianças, desejávamos crescer logo, rápido, e quando finalmente crescemos, é inevitável a vontade louca de voltarmos a ser crianças. 
Isso acontece porque tivemos bons momentos, boas brincadeiras, onde tudo se tornou mágico e inesquecível ao nossos corações. Então hoje, nós, os adultos, tão presos em nossas memórias, devemos fazer com que nossas crianças tenham a mesma doce, singela e bela sensação que um dia tivemos. 
Vamos ensinar nossas brincadeiras, vamos deixá-los serem crianças realmente, sem tantos compromissos. Essa é a hora deles, o tempo passa rápido demais, não sejamos coniventes com uma infância perdida.


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RafaFerrGove




Crônicas Noturnas, Por Michelle Paranhos





        

Monólogos Paralelos


   
      Um dos maiores prazeres que nós -escritores contemporâneos- temos é receber feedback de
nossos leitores. Saber como nossos textos foram recebidos, se a mensagem que tentamos
transmitir através de nossa construção de pensamento foi bem compreendida. Esse desejo
unânime-ou próximo a essa estatística- é compartilhado por cada um dos escritores da
atualidade: receber opiniões sobre seus textos e, se possível, aprovação.
Existem várias formas dessa interação autor/leitor ocorrer. Podem surgir através de views de
um blog, comentários em rede social ou até uma mensagem inbox para seu autor preferido.
Hoje mesmo um colega autor me perguntou: 

- Descobri o perfil de meu ídolo literário, devo solicitar amizade e enviar um “inbox” no perfil dele? 

Respondi que sim, pois, na pior das
hipóteses, ele receberia uma negativa ou seria ignorado.
Porém- e nunca uma dúvida foi tão maravilhosa- ele teria a chance de obter uma resposta
positiva. Convencional ou mais amistosa, não importa; essa resposta seria o divisor de águas, o
inicio de um encontro de almas, uma troca sincera entre escritores, talvez até entre mentor e
seu discípulo... As possibilidades são infinitas.
Qual a chance de um ídolo literário responder a você, um autor novato? Ínfima é verdade.
Talvez seja mais fácil entender por que o autor o responderia. E u arriscaria um palpite.
Antes, porém, vou fazer aquilo que eu faço com mais prazer: contar para você uma história.
Recebi uma critica de um resenhista sobre meu livro Ponto de Ressonância sobre um trecho
onde a personagem Ana dizia que ela e sua mãe travavam Monólogos Paralelos.
Pois bem. Foi muito interessante perceber que o resenhista agarrou-se a esse ponto e fez
questão de conversar comigo pessoalmente a respeito. E olha que isso foi apenas um detalhe
menor em toda a trama, nada além de uma menção num parágrafo que eu sequer me
atreveria a dizer a que página pertence.
A menção do termo Monólogos Paralelos soou incrível, pessoal, para além da história em si e
causou admiração e enlevo no resenhista.
Sendo ele também um escritor, está bastante familiarizado com o significado de monólogos,
diálogos e até mesmo solilóquio- técnica mais comum no teatro. Ainda assim, penso ser
necessário fazer um apanhado geral do significado dessas informações para não pairar dúvidas
sobre minha concepção a respeito de cada termo.
Monólogo: muito usado no gênero romance, especialmente no subgênero dramático, o
personagem conversa consigo mesmo ou como dizemos popularmente, com seus próprios
botões.

Diálogo é quando a cada mensagem enviada à outra pessoa, recebe em resposta uma fala
dentro de mesmo tema, sem mudar o assunto em questão.
Se, porém, o personagem falar para um alguém, como para a platéia de um teatro, por
exemplo, sem esperar por uma resposta temos um solilóquio e a quebra da Quarta Parede,
porque o expectador perde a “imersão na história” e a consequente a ilusão dele mesmo ser
um personagem para encontrar seu lugar de mero espectador de algo que está fora de seu
controle.
Alguns autores gostam desse solilóquio direto com o leitor na literatura e eu, particularmente,
adoro. Reparou que é mesmo isso que estou aqui e agora, fazendo com você? Ou não seria
bem isso?
Base da crônica na literatura, o solilóquio permanece um mistério para muitos.
A crônica, segundo definição, é um hibrido entre jornalismo e literatura, geralmente baseada
num fato verídico e contendo a opinião do autor sobre o assunto em questão assim como as
emoções despertadas diante do fato, com a intenção de compartilhar com o leitor dessas
mesmas emoções .
Dizem que é um gênero difícil, caprichoso, rocambolesco e indefinido. Eu não acho.
Iniciei a minha carreira de escritora como cronista e já transformava as minhas narrações de
escola em crônicas do cotidiano, travando sempre verdadeiros Monólogos Paralelos com o
meu leitor.
No teatro, porém, é possível perceber pela movimentação postural da platéia, como um
solilóquio é recebido, ainda que não existam aplausos ou vaias. Há uma resposta possível
ainda que não desejada.
Ah! Então cheguei aonde eu queria te levar: ao entendimento dos Monólogos Paralelos e o
que isso representa para nós, escritores.
Em algum momento, meus personagens costumam usar o recurso da metalinguagem para
falar da literatura e em meus romances há sempre a presença de alguém contando uma
história, de forma oral ou narrada- a figura do narrador/autor.
Não faz muito tempo o perfil que imaginávamos sobre escritores era caricato: pessoas
solitárias, taciturnas, reclusas.
Eu cresci lendo Machado de Assis 1* e a sua imagem acabrunhada com aqueles óculos
acompanhou minha adolescência e juventude.

1* Joaquim Maria Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de
setembro de 1908) foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e
leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil. Escreveu em praticamente todos os
gêneros literários, sendo poeta, romancista, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista e
crítico literário. Afro-descendente testemunhou a Abolição da Escravatura e a mudança política no país
quando a República substituiu o Império, e foi grande comentador e relator dos eventos político-sociais
de sua época.

Até hoje, quando ouço falar de Machado de Assis eu penso naquela foto. Foto? Já reparou que
há basicamente uma única foto dele que circula pela rede? Não? Pois procure mais amiúde.
Não há outras.
Ah! Ouço você retrucar, mas eram outros tempos. Certamente, eram mesmo.
Mas o que trouxe o nome de Machado de Assis até você foi seu espirito combativo e
abolicionista? Foi ele ser afrodescendente e lutar por uma causa? Ou por ser lembrado por ser
o Fundador da Academia Brasileira de letras?
Tudo isso aconteceu de verdade, mas não foi isso que fez dele ser venerado até hoje.
Dentro de seus romances, as razões estão em “Esaú “e Jacó”, “Quincas Berro D” Água” e “Dom
Casmurro”. E espalhadas por crônicas, novelas e outros romances. Especialmente graças a
Dom casmurro, que me fez ter a certeza que, desde que o li pela primeira vez, fosse um
romance autobiográfico.
Sendo assim, quem seria Capitu? E Escobar? Não sei... Você ouviu algo a esse respeito? Porém,
tenho certeza de que já deu seu pitaco sobre Capitu ter ou não traído o Bentinho.
Foram as obras que imortalizaram Nosso eterno “ Dom Casmurro”e não o foco centrado na
construção da imagem do autor.
Ao sentarem-se diante do computador ou mesmo munidos de seu caderno e caneta, os
escritores estão construindo mundos fantásticos e emprestando vida e voz aos personagens.
O escritor é um ser tão controvertido que, ao mesmo tempo em que precisa estar no mundo
para absorver e fundamentar os milhares de perfis possíveis e lapidá-los, transformando-os em
personagens verossimilhantes a ponto de acharem que, de fato, são pessoas reais, existe outro
momento de real solidão, tal como estou agora, sentada diante de minha escrivaninha, a luz
acesa e o gato dormindo ao meu lado sobre a cama.
Eu poderia descrever um cenário para você de onde estou nesse exato instante e, ainda assim,
seria a minha representação dos fatos e não condiria, necessariamente, com a realidade. Isso
faz de mim uma ficcionista.
Entretanto, eu gosto de colocar um pouco de mim e minhas opiniões em cada personagem.
Essa é a parte realista de meus romances.
Ao usar a personagem Ana para falar sobre Monólogos Paralelos eu quis expressar algo que
você não verá definido na literatura ou sequer encontrará especificado o significado. Apenas
retratei algo que eu sinto e penso a respeito, talvez até, quem sabe, tenha criado, sem saber,
um neologismo.
Ao contrário do solilóquio em que a pessoa espera por uma reposta, nos Monólogos Paralelos
não há diálogo possível. Eu falo para um alguém que sequer sei se estará ouvindo, mas
enquanto existir essa possibilidade há outra fala acontecendo no mesmo instante e sem a ela
se sobrepor: a fala exclusiva do leitor, ainda que apenas para si mesmo.

Porém, será que ele me responderá enquanto ler ou apenas imaginará o texto que nunca
escrevi, lendo algo que só existe em sua própria imaginação e entendimento?
Será que minhas palavras encontrarão eco? Ele lerá o que de fato nunca foi escrito ou aquilo
que ele mesmo compreendeu, criando seu próprio texto e dialogando consigo mesmo, sem
nunca pensar em mim ou em minhas palavras?
Há uma possibilidade de diálogo entre mim e o leitor que nunca se concretizará de fato, a não
ser que ele- e esse direito e honra cabe exclusivamente a ele- possa dizer ao escritor o que
achou. Somos todas vítimas de Monólogos Paralelos.
E essa resposta será, realmente, primordial? É para massagear o próprio ego que buscamos a
opinião de outra pessoa?
Penso hoje como seria estranho para Machado de Assis viver a angústia de nossos tempos,
ansiando pela Opinião, pela exposição da própria imagem, pelo escrever e esperar aprovação.
Há locais em que o escritor vive a exacerbação desse movimento, escrevendo e trocando de
condução de personagem, ambientação e foco narrativo a cada comentário, seja ele favorável
ou não.
Vive-se e se permite morrer um pouco à custa da extravagância dos views, do apelo das
curtidas e do comércio em torno- seja ele legal e até mesmo paralelo. De pessoas trocando
interação e curtidas de textos que jamais leram, apenas porque foram escritas por seus ídolos.
E assim, o escritor permanece um solitário, carrancudo Dom casmurro, acabrunhado dentro de
si mesmo, enquanto sua face demonstra um caloroso sorriso para acolher um feedback tão
ansiado- tão importante quanto um falso diamante.
Eu falo, agora mesmo, para uma pessoa ou para centenas? O que elas pensam a respeito desse
texto? Você, você mesmo, concorda com a temática dessa crônica?
Ouvi um autor reclamar que não saberia para quê o Gênero Crônica servia e nem em que
estilo literário enquadrar.
Ainda agora eu preciso, escritora contemporânea que sou, lhe fazer esta fatídica pergunta: o que
terá a dizer sobre isso?
Travaremos um diálogo, um solilóquio ou estarei fadada a um Monólogo Paralelo?
Cabe a você, somente a você, a resposta.



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Michelle Louise Paranhos - escritora, autora, blogueira, romancista e cronista