Com a Minha ou Com a Sua?




            Antigamente, aqui na roça, as coisas eram muito mais simples, tudo se resolvia com os materiais que abundavam na natureza e, à Lavoisier, nada se perdia, tudo se transformava. Aliás, em se tratando de reaproveitamento, do boi, só se perdia o berro. Naquela época a maioria das casas era de taipa, pau-a-pique ou adobe e, o reboco, terra de formiga e estrume (bosta) de boi. O processo era simples: recolhia-se as fezes do boi, adicionava-se à terra que a formiga, cavando seus túneis, retirava das tocas e estava pronta a massa para se rebocar as casas. A franqueza era algo que se prezava, ainda que algumas pessoas extrapolassem o seu campo e adentrassem o terreno da grosseria e brutalidade. O franco, muitas vezes, apenas mais um arrogante que gostava de humilhar aos outros, aproveitando-se de seu status social ou condição finaceira. 
Um amigo do meu avô, o Sr. JC, era especialista neste tipo de serviço, um expert em rebocar com bosta de boi. Pois bem, em vésperas de festa religiosa – e o nosso calendário era recheado delas -, o sujeito batia à porta de Seu JC para agendar o serviço. É de bom alvitre lembrar que o dito JC, em suas próprias palavras, havia “deixado de ser branco para ser franco” e dizia as verdades que acreditava fosse onde, quando, como e com quem fosse. 
No caso dos serviços, havia duas alternativas para a aquisição do material necessário, ou seja, a bosta: ou esta era recolhida pelo dono do serviço ou pelo seu executor, Seu JC. E se desenrolava, invariavelmente, o seguinte diálogo: 

−Seu JC, mês que vem é festa de São Fulano (ou Santa Bertrana) e eu tava quereno rebocá minha casa. Quiria sabe se o sinhô pudia fazê esse sirvicim pra mim? 

−Posso! Posso sim! Sua casinha é simpres, miúda! Uma titica de casinha! É o prazo de capá um gato. – franqueza absoluta do nosso conterrâneo. 

−E quanto é o sirviço, Seu JC? 

−Aí depende! Vareia... É com minha bostia, ou com sua bostia? Por que se fô cum minha bostia é mais caro! – quando o Seu JC queria dizer minha, era que ele a recolheria. 

Invariavelmente o dono do serviço o contratava, com a bosta fornecida pelo Sr. JC, mesmo pagando mais caro e nas festas dos santos de sua devoção, ostentava sua casa bem rebocada, caiada com tabatinga e feliz. 

Uma excelente semana para todos.


Francisco Ferreira

Coluna: Gotas de Mim





O tempo Acabou


Um dia acordei e pensei assim: se hoje fosse o meu último dia de vida ,o que eu iria fazer?
Nossa, minha mente me mandou tantas possibilidades, que faltou ânimo para me manter acordada.
Acho que é melhor a morte me enviar aviso prévio de pelo menos um ano, ou me pegar dormindo.


Sou Lógica


Seu sorriso me contagiou
Me peguei sorrindo do nada, e como sou muito racional, logo me veio a dúvida: rindo de quê?
Para cessar minha necessidade de resposta, pensei: estou rindo de mim mesma!


Jardim de Gente


Ande por entre pessoas como quem anda por entre flores.
Ande por entre flores como quem anda por entre amigos.
Ande por entre amigos como quem chegou no paraíso, relaxe e comemore.


Nada Te Faz Feliz


Ridículo pensar que terei alguma chance em te fazer feliz.
Ninguém te faz feliz e nem fará, pois isto nunca esteve ou estará nas mãos de outra pessoa.
Só você poderá se fazer feliz.
Então, se resolva logo e me comunique a decisão.



Claudia Borges

Coluna: Sr.Cotidiano






                                   A Vida Imita A Arte




                       Quando a professora Solange falou que iríamos ao museu, não gostei muito. 
Na verdade, nunca fui em um, mas acho que deve ser superchato e entediante. Isso é coisa de adulto, ficar olhando por horas um quadro estranho para depois comentar coisas sem sentido sobre aquilo. Vi isso em vários filmes, em alguns deles o mocinho se apaixona pela mocinha, o que seria demais pra mim. Outra coisa que me incomoda nessa excursão é que o Pedro pode começar a fazer chacota comigo com o Júlio perto. 
Mesmo com todos esses motivos contra, levei a autorização para a minha mãe assinar, nada poderia ser tão ruim. Além do mais, sempre gostei de passear de ônibus, sentar na janela. Fico imaginando quando for adulta e magra, os garotos vão gostar de mim sem que eu passe cola para eles e eu vou olhar e dizer "eu não quero", que nem a Carol faz. Não terei que mentir que já beijei na boca ou que alguém já me pediu em namoro, porque serei bonita. 
As minhas amigas Letícia e Anne, estarão lá para me dar apoio. Elas são muito legais, dividem o lanche comigo escondido, porque se algum dos meninos virem, eles jogam os biscoitos no chão, pisam e ficam gritando "baleia" o tempo todo. No começo chorava muito, até a Letícia me passar as coisas escondidas no banheiro. A Anne tentava bater neles e contar para as tias, que tinham a resposta na ponta da língua: "eles são assim mesmo". 
O museu é grande e espaçoso, maior que a minha casa. Tem muitas paredes, poucas pessoas e um vazio enorme que se gritar dá eco. Acho que sou igual um museu. O moço que a Tia Solange nos apresentou começou a mostrar os quadros e um pouquinho da história deles. Eram umas coisas esquisitas e coloridas, que fizeram o Pedro e seu bonde rirem. Não sei se fiz por instinto, dei as mãos para minhas amigas, preparando para segurar o choro caso o motivo fosse eu. Paramos em um dos quadros, ele mostra alguns adultos em um lugar verde, pareciam tranquilos. 

-É tão feia quanto a Roberta! - As gargalhadas de toda a turma enchiam o museu. A Tia Solange gritava algumas palavras de ordem em vão. Letícia apertava mais forte a minha mão e Anne tentava inultilmente calar as risadas. 

O quadro na parede devia ser um pouco menor que eu. Mostrava quatro pessoas, sendo uma mulher e três homens. Diria que estavam comemorando algo. A mulher no centro era gorda, branca com o cabelo cumprido e vermelho. Os homens a olhavam com carinho e com respeito. Quase podia toca-los e sentir que ali, aquela mulher, não era tratada diferente, mas sim como alguém especial. O olhar dela era de felicidade. Naquele momento quis ser ela. Sem vergonha do próprio corpo, com amigos e pretendentes, feliz por existir. 
As risadas ficaram em segundo plano. Não conseguia dizer o que estava sentindo, era como se realmente existisse um mundo dos meus sonhos, onde não havia solidão ou choro por não ser bonita e magra. 
Quando a excursão terminou, tive a certeza que dentro de mim morava um museu com aquele quadro. Talvez quando fosse adulta, pudesse colocar mais quadros para que outros pudessem vir, olhar e vivê-los.


Ked Maria