Coluna: Gotas de Mim





Agoniado

Não se desculpe meu amor, por nada ter feito quando seu amor por mim acabou, sobre o morto, só vertemos lágrimas de tristeza.

****


Conselho de Mãe

Menino, obedeça sua mãe, faça tudo diferente do que eu fiz e seja feliz, é uma ordem.

****


Somos Humanos

Ridículo demais, pensar, pensar e pensar, decidir com muito esmero, e acabar agindo por impulso.

****


Promessas Quebradas

Ontem, eu disse a você que ia embora e não fui,
Mas também prometi começar minha dieta, e não comecei.

****

Claudia Borges


Coluna: Alma Vivente







Nada Mudou


Tentei não chorar, não sofrer
Fazer de mim rocha forte, onde não houvesse você
Infeliz e tristonha
Pensando no quão bom seria se aqui estivesse
Mas nunca esteve 
Nem fizeste questão de estar
Ainda sonho com teus abraços
Com teu carinho, seu socorro
O mesmo que nunca veio
Nem mesmo em meus piores momentos 
Você foi apenas uma ilusão para mim
Nunca me salvou
Acho que sequer lembra-te de mim, ou será que lembra?
Lembras da filha que não quis, que rejeitou ainda tão pequena?
É papai, dentro de mim, fiz de ti um herói, para não morrer vítima do desprezo com o qual me tratou por todos estes anos
Hoje não sou mais aquela pequena menina, que das poucas vezes em que esteve em sua presença, tudo o que quis foi seu grande amor
É verdade, o primeiro grande amor de nossas vidas se chama Pai! 
É aquele que nos protege do mundo, que nos faz sentirmos a mais preciosa das joias, uma princesa de mundos encantados
Eu não tive nada disso
O amor de um pai por seu filho tem que vir do coração, e o seu sempre esteve fechado para mim
Sabe de uma coisa, eu enfrentei muitas coisas, muitas tristezas, e tive muito sucesso também, pena que tudo isso, foi sempre sem você 
Eu sempre esperei a aprovação de uma única pessoa, a que jamais quis me aprovar em nada
Você nunca deixou de me fazer falta
Desejo de todo o meu coração que esteja bem, feliz
Se por um acaso vovó e vovô estiverem vivos, que Deus os abençoe e guarde
Se eu tiver irmãos, que sejam todos felizes ao seu lado e que possam ter tudo o que não tive, afeto, carinho, atenção e amor, seu amor
Isso foi tudo o que sempre me importou
Nunca quis nada além de seu amor 
Não tenho raiva de você
O que sinto é angústia, e um grande toque de tristeza
Dessa jamais serei curada, tenho certeza.
Mas enfim, hoje estou grandinha já, trinta e dois anos, um par de filhos lindos, seus netos, os quais também perguntam por ti
Mas o que dizer, além de não sei onde ele está? 
Sr. Rafael, aqui é sua filha Rafaele, a qual ainda carrega seu nome, a qual entre todos os filhos de minha mãe, é a única que possui o fator sanguíneo diferente, A+
Estranho, mas sou obrigada a lembrar-me de ti, mesmo quando não quero
Estou bem agora, não que te importe, ou faça diferença em sua vida
Que Deus lhe dê vida longa, e se possível, seja feliz
Um dia, quem sabe, nos vemos por aí
E só para constar, eu ainda me lembro da Coca-Cola e do biscoito piraquê
Nada mudou...

****

Momento Shalom


Todo filho, o qual não tem o pai ao seu lado, sente um vazio em si, Idealiza e projeta histórias dentro de seu pequenino coração para superar a rejeição. 
Podemos não falar, mas sentimos, e isso dói, embora tentemos esconder. É estranho e meio assustador, mas ninguém consegue viver muito bem sem sua outra metade da cadeia projenitora de seu DNA. O que tenho a dizer sobre isso? 
Que sejamos melhores do que eles foram para nós. 
Que as marcas causadas por eles em nossas almas, não toquem em nossos filhos. 
É nossa vez, que Deus nos ajude.

****

RafaFerrGove

Web Novel








Capítulo 2




Bastaram dois passos naquele lugar para o espirro brotar em seu nariz, ele sempre detestara formol, desistira da faculdade de medicina também por este motivo.
O Lugar era abafado, Aaron apertava um lenço contra a boca, tentando evitar o cheiro forte de formol e morte. Sobre a portaria, girava um decrépito ventilador de teto, que não amenizava o calor, mas servia para tornar o ar um pouco mais respirável. Ele tocou três vezes seguidas a sineta sobre o balcão, não demorou para uma enfermeira de aparência afetada e excesso de maquiagem aparecer, suas bochechas estavam cobertas de blush, ela carregava, de modo atrapalhado, um pacote de fichas.
Aaron se lembrou da primeira vez que beijou uma mulher, fora na festa de aniversário de seu falecido pai, ele tinha longínquos dezenove anos, ela também gostava de exagerar naquele cosmético.

Bom dia, em que posso ajudar? — deixou a pilha de fichas cair sobre o balcão.

Eu sou o detetive Aaron Mclroy, da homicídios — balançava o cordão com o distintivo.

A enfermeira de aparência afetada forçou um sorriso.

Qual defunto veio visitar?

A frieza da enfermeira era natural, trabalhar naquele lugar fazia isso com as pessoas, a morte se tornava, dia após dia, cada vez mais natural, já não havia a comiseração, o pesar, só corpos vazios, frios, destituídos de sua função biológica.

Alicia Masterson.

A enfermeira fez uma expressão irônica, Alicia era o que os funcionários do necrotério chamavam de “celebridade”, repórteres, sites de notícias e, agora, a polícia.
Todos queriam alguma informação da mais nova vítima do “retalhador”, era assim que os jornais estavam chamando o suposto serial killer que já havia feito seis vítimas na cidade.

Ah, sim, a famosinha da vez!

Enquanto a enfermeira de aparência afetada o guiava pelos corredores bem iluminados, ele reparava em seu rebolado, imaginando coisas que, certamente, não combinavam com o local.



****


A doutora Rachell se esforçava para não rir, a “revelação” que Elliot fizera era, no mínimo, estapafúrdia. Se ajeitou em sua cadeira e respirou fundo.

E por que você acha isso, como chegou a essa conclusão?

Elliot se levantou de uma só vez, andando nervosamente em volta do divã.

Eu tenho... Acordado nas sarjetas da cidade, sempre nas noites de lua cheia!

A doutora Rachell ainda lutava contra a vontade de rir.

Isso não é tão anormal assim, Elliot, muita gente acorda na sarjeta, por motivos diversos, bebedeira por exemplo.

Eu só bebo socialmente, doutora.

Elliot esfregava o rosto com as duas mãos, cada vez mais nervoso.

E além disso, doutora, tem isso aqui!

Rachell encarava, de olhos arregalados, o lenço ensanguentado que Elliot tinha sobre a palma da mão esquerda.
Entre alguns rasgos e manchas de sangue, era possível ler: J.P

Aquelas eram as iniciais da primeira vítima do Retalhador.



****

Luis Moura