Coluna: Gotas de Mim






Vivendo Intensamente 

Tudo é novo na vida quando na vida não falamos de novo. 
Tudo é velho na vida quando no nosso olhar só o enfado do eu já sabia persiste.

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Amor Quântico 

Vou me replicar em você, até que você me veja como parte indispensável do seu ser.

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Sabedoria Atemporal 

O tempo não se cansa de passar. 
E ultimamente tem corrido como louco, atrás de algo que nem ele sabe se vai reconhecer quando encontrar.

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Interação 

Tempo é algo tão precioso, que só devemos dar a quem, no fim das contas, não nos lembremos como perda.

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Claudia Borges 

Coluna: Alma Vivente







Meu Chão 


Quem dera a estrada fosse visível 
Que o tempo não fosse meu inimigo agora 
Mas sim, ele é!
Olho minha dor e ela é tão linda, tão encantadora 
Meus olhos de azuis hoje são cinzas
Em meu peito, uma chama da saudade 
Que arde e consome
O infinito já não existe, o chão é o meu lugar 
Queria poder correr e ir quem sabe onde
Eu estou imóvel, inconsolada de dor 
O luto é terrível
Onde poderei um dia encontrar aquele que me deixou?
Choro com mil facas na garganta, não existe nada dentro de mim além do que me foi arrancado sem explicação
Não tive chance de nada desde minha última visão
Onde eu o verei novamente, senão em minhas lembranças 
Onde poderei eu te tocar? O que será de mim, com esse nunca mais? 
Queria eu ter coragem de jogar-me, e assim, acabar com tudo o que sinto agora
Querido Apolo, por quê?
Onde estará você, meu amor tão querido?
Você me matou meu querido, mesmo que eu ainda esteja viva
Eu estava bem, mesmo sabendo que jamais haveria uma chance para nós 
Eu estava bem, porque sua felicidade me fazia viver
E agora o que será de mim sem você? 
Me destes três tiros meu querido
Não foi piedoso, compaixão não tivestes de mim
Três, e foram todos incrivelmente fatais
Que tristeza, se perdeu toda a gentileza de quem veio e construiu, depois sequer se despediu
Eu odeio te amar 
Eu odeio nunca poder te esquecer, eu o odeio e amo com todas as minhas forças, odeio tudo o que me faz lembrar você
Apolo, Apolo meu 
Meu querido e gentil, o mais doce e mais covarde 
Tu me deste o céu e o inferno. E me levou da vida tão cedo
O luto que sinto agora, meu querido, é de alguém que jamais saberá viver sem "seu "bem"
Me despeço de ti como quem também quer partir 
Me despeço de ti, em pensamentos e tristeza 
Em prantos sobre as grandes migalhas que me destes 
E que de tão incríveis, agora alimentarão minha morte
Me despeço de ti porque fostes cruel em partir
E agora, só Deus sabe o que será de mim.

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Momento Shalon 


O luto é algo incrívelmente destruidor.
É como morrer estando vivo. É como não saber o que fazer para sobreviver. 
O tempo passa, mas a saudade que permanece tortura os dias, com o seu inquietante nunca mais. 
Nunca mais um oi, nunca mais um sorriso, nunca mais NADA. Apenas lembranças, tristeza e dor. Por todos os sonhos que se foram, e todos os outros que ficaram. 
É duro, mas faz parte. 
É a única certeza, "nunca estamos preparados". 
E isso dói demais. 

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RafaFerrGove

Coluna: Crônicas de Quinta





Reportagens


Estava teclando no computador com a TV ligada — reflexo da nossa vida multitarefa — quando ouvi uma rajada  de metralhadora.
Olhando para a TV, observei uma moça sorrindo sendo entrevistada, placidamente, enquanto ouvíamos o barulho de uma metralhadora ao fundo. Fiquei admirada com a cena e parei de escrever para saber, afinal, o que estava acontecendo.
Agora, com a atenção voltada para a reportagem, entendi o que de fato acontecia: a repórter falava com uma moradora de área ribeirinha, região norte do país, enquanto ela mantinha o motor do seu barco, a ferramenta do seu sustento, ligado.
Era sobre isso que falavam. Levei alguns minutos para entender que eu me enganara, por fim.
 O que minha mente rapidamente interpretou como tiros, era tão somente o barulho de um barco a motor.
Refleti sobre o quão falha é a percepção de nossos sentidos, essas diferenças são reações a que nos habituamos em nossas vivências.
Eu não utilizo barcos como meio de transporte, não é a minha realidade.
Mas, infelizmente, a realidade em que vivo esperaria uma rajada de metralhadora. Será que ouvir tiros é normal, numa manhã comum? Um dia apenas como qualquer outro... Que letargia é essa que nos faz perceber a violência como fato banal?
Outra reportagem agora.
A marca famosa de TV alerta aos usuários — não clientes, entendam, usuários foi o termo utilizado — que tomem cuidado com aquilo que falam diante da TV, porque agora o aparelho tem comunicação exterior via web e lança tudo o que acontece na casa para conhecimento do mundo, em tempo real. 
Adeus assisitir TV de pijama, preguiçosa, numa manhã de domingo.
Privacidade zero. Valei-me!
Desligo a TV e volto a ler. 
Foi-se o tempo em que ler era hábito para sair do mundo comum.
Hoje, porém, ler possui a estranha função de se arrumar algo comum para nosso tão estranho mundo.

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Michelle Paranhos